Quando lemos a Bíblia, alguns acontecimentos podem parecer estranhos simplesmente porque estamos olhando para uma sociedade de cerca de dois mil anos atrás com os olhos de hoje. Gestos que atualmente chamariam atenção faziam parte da rotina, das regras de hospitalidade e até da maneira como as pessoas lidavam com a morte.
Conhecer esses costumes também ajuda a entender melhor várias passagens do Novo Testamento. Algumas cenas famosas envolvendo Jesus fazem muito mais sentido quando descobrimos como as pessoas realmente viviam naquela época.
Comer praticamente deitado
Em refeições mais formais, era comum que os convidados não se sentassem em cadeiras como fazemos hoje. Eles podiam comer reclinados em divãs ou almofadas, apoiados sobre um dos braços, com os pés voltados para fora da mesa. O costume tinha influência do mundo greco-romano e aparece diversas vezes nos relatos do Novo Testamento. Evidências arqueológicas mostram que esse tipo de ambiente para refeições realmente existia na Judeia do século I.

Isso também ajuda a explicar uma cena que pode parecer estranha atualmente: a mulher que se aproxima dos pés de Jesus enquanto ele fazia uma refeição na casa de Simão. Como Jesus estava reclinado, seus pés ficavam voltados para trás e eram facilmente acessíveis.
Lavar os pés das visitas
Receber alguém em casa podia envolver oferecer água para que a pessoa lavasse os pés. Em algumas situações, esse trabalho também poderia ser realizado por um servo. Não era difícil entender o motivo: as pessoas caminhavam muito, as ruas eram em grande parte poeirentas e o uso de sandálias deixava os pés bastante sujos.

Por isso, quando Jesus lava os pés de seus discípulos, o gesto ganha um significado muito maior. Ele assume voluntariamente uma tarefa associada ao serviço e à humildade.
Cumprimentar pessoas com um beijo
O beijo não estava necessariamente relacionado a romance. Ele podia funcionar como uma forma normal de saudação, amizade, respeito ou hospitalidade. Em Lucas, por exemplo, Jesus menciona que Simão não lhe ofereceu um beijo de recepção ao entrar em sua casa.

Algo semelhante continuou entre os primeiros cristãos, com referências posteriores ao chamado “beijo santo”. Para alguém acostumado apenas com aperto de mão, aceno ou abraço, o costume provavelmente pareceria bastante diferente.
Passar óleo na cabeça de um visitante
Outra demonstração de hospitalidade podia ser oferecer óleo ao convidado. Em uma região quente e seca, óleos aromáticos ajudavam a refrescar a pele e também funcionavam como perfume.

No mesmo episódio em que menciona o beijo e a lavagem dos pés, Jesus reclama que seu anfitrião não havia ungido sua cabeça com óleo. Ou seja, coisas que hoje poderiam parecer um tratamento de spa faziam parte das demonstrações de consideração oferecidas a determinadas visitas.
Enterrar uma pessoa poucas horas depois da morte
Os funerais podiam acontecer muito mais rapidamente do que estamos acostumados atualmente. Entre os judeus da Judeia do século I, o corpo normalmente era preparado e enterrado o quanto antes, frequentemente ainda no mesmo dia.

O corpo podia ser lavado, envolvido em tecidos e colocado em uma tumba. Isso também ajuda a entender a rapidez com que os Evangelhos descrevem os preparativos para o sepultamento de Jesus depois da crucificação.
Vale lembrar que os costumes não eram necessariamente idênticos entre todas as pessoas da região. Existiam diferenças sociais, religiosas e econômicas. Ainda assim, conhecer essas práticas mostra como várias cenas bíblicas aparentemente incomuns eram perfeitamente compreensíveis para quem vivia naquele mundo.

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