A eleição presidencial de 2026 mostrou mais uma vez como uma disputa pode ser decidida nos detalhes. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença de apenas 1,87 ponto percentual entre os dois foi a menor registrada entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.
Ao mesmo tempo, o país registrou outro número impressionante: 33,47 milhões de brasileiros não foram votar, o maior número absoluto de abstenções já registrado em um primeiro turno de eleições gerais. Isso representou 21,08% do eleitorado. Proporcionalmente, porém, não foi recorde: em 1998, a taxa chegou a 21,49%.
Os números ajudam a colocar em perspectiva uma frase que costuma aparecer a cada eleição: “um voto não vai fazer diferença”.
Pode fazer. E já fez.
No Brasil, especialmente nas eleições para prefeito de municípios com menos de 200 mil eleitores, basta terminar com mais votos que os adversários. Não existe uma vantagem mínima exigida. Se um candidato receber 2.001 votos e outro 2.000, o primeiro está eleito.
E as eleições municipais de 2024 produziram alguns exemplos difíceis de acreditar.
Bozinha: eleito por 5 votos

Em Campo Magro, no Paraná, Rilton Boza, o Bozinha, do PP, recebeu 6.168 votos.
Osmar Leonardi, do PSD, terminou com 6.163.
Diferença: 5 votos.
O mais curioso é que havia mais candidatos na disputa. Bozinha venceu com apenas 37,57% dos votos válidos, contra 37,54% de Leonardi. Como o município tem menos de 200 mil eleitores, não há segundo turno e vence simplesmente o candidato mais votado.
Agnaldo Andrade: eleito por 4 votos

Na Bahia também houve um caso impressionante.
Em Santa Terezinha, Agnaldo Andrade, do PSD, foi reeleito prefeito com 3.883 votos.
Ailton, do PT, recebeu 3.879.
Diferença: 4 votos.
O placar percentual ficou em 50,03% contra 49,97%.
Jove: eleito por 3 votos

Em Assunção do Piauí, mais uma disputa inacreditavelmente apertada.
Jove, do PSD, recebeu 3.319 votos.
Jackson, do PT, teve 3.316.
Diferença: 3 votos.
Percentualmente, o placar terminou em 50,02% contra 49,98%.
Mais de 6,6 mil votos válidos foram registrados na disputa, mas apenas três acabaram separando vencedor e derrotado.
Douglas Honorato: eleito por 2 votos

Em Monções, São Paulo, a disputa também foi praticamente voto a voto.
Douglas Honorato, do PSD, terminou a apuração com 952 votos, enquanto Erito Camin, do PSB, recebeu 950.
Diferença: 2 votos.
Douglas terminou com 50,05% dos votos válidos contra 49,95% do adversário.
Antonimar Amorim: eleito por 1 voto

Em Olho d’Água do Borges, no Rio Grande do Norte, Antonimar Amorim, do União Brasil, recebeu 2.178 votos.
Sua adversária, Laize Sales, do PP, conseguiu 2.177.
O resultado final ficou em 50,01% contra 49,99%.
Diferença: 1 voto.
Ou seja, bastaria uma única pessoa ter escolhido diferente para alterar completamente o cenário da eleição.
E se houver empate?
A situação pode ficar ainda mais curiosa.
Se uma eleição majoritária terminar com exatamente o mesmo número de votos, a legislação eleitoral prevê um critério de desempate: fica em vantagem o candidato mais idoso.
Os cinco casos de 2024 formam uma sequência quase perfeita: candidatos eleitos por 1, 2, 3, 4 e 5 votos de diferença.
Em uma eleição presidencial, milhões de votos costumam separar os candidatos. Mas, espalhadas pelo Brasil, existem disputas em que uma família, um grupo de amigos ou até uma única pessoa que decidiu sair de casa para votar pode acabar definindo quem comandará uma cidade pelos quatro anos seguintes.

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