Quando cidades, vilarejos e grandes extensões de terra são abandonados, não demora muito para que a natureza comece a apagar os sinais deixados pelos humanos. O asfalto racha, a vegetação invade construções e animais passam a circular por lugares onde antes dificilmente seriam vistos.
Em algumas partes do mundo, esse processo aconteceu de maneira tão intensa que antigos territórios humanos acabaram funcionando quase como reservas naturais involuntárias. E alguns desses lugares têm histórias impressionantes.
Chernobyl, Ucrânia
Depois do acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, milhares de pessoas foram retiradas das áreas próximas à usina. Pripyat, que tinha escolas, prédios residenciais, lojas e até um parque de diversões, tornou-se uma das cidades fantasmas mais famosas do planeta.
Décadas depois, porém, a região está longe de estar sem vida. Lobos, alces, veados, linces, javalis, ursos e cavalos-de-Przewalski vivem na Zona de Exclusão. Pesquisadores descobriram que várias populações de grandes mamíferos conseguiram se estabelecer justamente em uma área onde a presença humana se tornou extremamente limitada. A radiação continua sendo um problema, mas a ausência de caça, agricultura e urbanização criou uma situação incomum para a fauna.
Fukushima, Japão
Algo parecido ocorreu depois do terremoto, tsunami e acidente nuclear que atingiram Fukushima em 2011. Diversas comunidades próximas à usina de Fukushima Daiichi foram evacuadas, deixando casas, plantações e estradas praticamente vazias.
Com pouca presença humana, javalis passaram a circular pelas áreas abandonadas, acompanhados por macacos-japoneses, cães-guaxinins e outros animais. Um estudo realizado na região encontrou maior abundância de algumas dessas espécies dentro da zona de evacuação do que em locais próximos ainda habitados por pessoas.

Zona Desmilitarizada da Coreia
Entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul existe uma faixa de aproximadamente quatro quilômetros de largura criada depois da Guerra da Coreia. Antigos povoados desapareceram e o acesso ao território passou a ser extremamente restrito por razões militares.
O curioso é que décadas praticamente sem cidades, estradas movimentadas e agricultura transformaram partes dessa faixa em um importante refúgio para animais. Grous-de-coroa-vermelha, ursos-negros-asiáticos, raposas, cervos e outras espécies encontraram ali um território relativamente protegido da atividade humana. É um dos exemplos mais estranhos de como uma região criada por um conflito militar acabou adquirindo enorme importância ambiental.

Redonda, Caribe
Redonda é uma pequena ilha vulcânica localizada entre Nevis e Montserrat, no Caribe. Durante décadas houve exploração de recursos naturais no local, mas a atividade acabou sendo abandonada durante a Primeira Guerra Mundial.
Os humanos foram embora, mas alguns animais introduzidos por eles ficaram. Cabras selvagens e milhares de ratos passaram a dominar a ilha, destruindo grande parte da vegetação e alterando completamente o ecossistema. A situação ficou tão grave que décadas depois foi necessário realizar um enorme projeto para retirar as cabras e eliminar os ratos. Depois disso, a vegetação e espécies nativas começaram a retornar rapidamente.
Varosha, Chipre
Durante o início dos anos 1970, Varosha era uma das regiões turísticas mais famosas de Chipre, cheia de hotéis, restaurantes e edifícios próximos ao mar. Tudo mudou em 1974, quando seus moradores fugiram durante o conflito envolvendo forças gregas e turcas.

Grande parte do bairro permaneceu fechada durante décadas. Sem manutenção e quase sem presença humana, plantas começaram a ocupar ruas, calçadas e prédios. A redução da atividade humana também favoreceu a fauna da região. Pesquisas realizadas na zona de separação de Chipre registraram aumento ou recuperação de animais como lebres, aves, lagartos, ouriços e tartarugas, enquanto áreas úmidas próximas de Varosha acabaram funcionando como refúgios para diferentes espécies.
O mais curioso nesses lugares talvez seja perceber a velocidade com que a natureza consegue recuperar espaço. Em poucas décadas, ruas podem virar caminhos para animais, prédios podem ser engolidos pela vegetação e lugares construídos para milhares de pessoas podem ganhar habitantes completamente diferentes.

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