Durante muito tempo, encontrar um perfil falso nas redes sociais significava descobrir que alguém estava usando a fotografia de outra pessoa. A inteligência artificial mudou completamente essa lógica. Hoje, já é possível criar do zero uma mulher que nunca nasceu, definir seu rosto, corpo, personalidade, gostos e rotina e depois produzir fotografias e vídeos suficientes para fazer parecer que ela leva uma vida perfeitamente normal.
Algumas dessas personagens acumulam centenas de milhares de seguidores, recebem propostas comerciais, conversam com fãs e até oferecem conteúdo por assinatura. Em determinados casos, quem acompanha o perfil sabe que se trata de uma criação digital. Em outros, porém, a aparência é tão realista que muita gente simplesmente não percebe.
Aitana López: a espanhola de cabelos cor-de-rosa que nunca existiu

Aitana López parece uma típica influenciadora fitness de Barcelona. Tem cabelos cor-de-rosa, publica imagens na academia, aparece em viagens, usa roupas de diferentes marcas e possui até gostos e traços de personalidade definidos.
Só existe um detalhe: Aitana nunca existiu.
Ela foi criada pela agência espanhola The Clueless. Segundo seus responsáveis, a ideia surgiu depois que a empresa enfrentou dificuldades trabalhando com influenciadores e modelos reais e decidiu criar sua própria personagem, sobre a qual teria controle completo.
Aitana começou a conquistar seguidores e também passou a gerar dinheiro. A agência responsável chegou a afirmar que, nos melhores meses, a personagem poderia faturar cerca de 10 mil euros, graças a publicidade, parcerias comerciais e conteúdo disponibilizado em plataformas de assinatura.
O mais interessante é que seus criadores não produzem apenas imagens aleatórias. Existe uma espécie de roteiro para a vida da personagem. A equipe decide onde Aitana supostamente esteve, o que fez durante a semana e que tipo de conteúdo publicará. Assim, o perfil passa a transmitir a sensação de acompanhar a rotina de uma pessoa real.
Maya: a “modelo” que teria faturado US$ 43 mil em apenas um mês
Um dos casos que mais chamou atenção em 2026 foi o de Maya, uma personagem que teria sido criada por um estudante universitário de 21 anos, de Austin, no Texas.
Segundo a história que viralizou nas redes sociais, Maya era apresentada como uma jovem de 22 anos, ex-estudante de psicologia da Universidade da Flórida Central. Em apenas seu primeiro mês no OnlyFans, o perfil teria alcançado 1.247 assinantes pagos e US$ 43 mil em receita, com um único seguidor gastando US$ 1.847 em mensagens e conteúdos exclusivos.
Só que Maya simplesmente não existe.
A 21-year-old student from Austin created an OnlyFans profile named "Maya."
He got 1,247 subscribers and $43k in revenue in the first month for a young woman who simply doesn't exist.
Y’all claim you don’t need women but go jérk off to an imaginary AI generated woman. 😂😂 pic.twitter.com/eVvk3GZkJH
— Snow🤍❄️ (@freakin_snow) May 7, 2026
De acordo com o relato original, suas fotografias eram produzidas com o gerador de imagens Flux, sua voz era sintetizada pelo ElevenLabs e até as conversas privadas com assinantes eram produzidas com auxílio do Claude Code. Em outras palavras, não existia uma modelo diante da câmera nem necessariamente uma pessoa digitando cada mensagem recebida pelos fãs.
Emily Pellegrini: uma das personagens que transformaram isso em negócio
Emily Pellegrini ficou famosa justamente por levar esse modelo de negócio ainda mais longe.
Com aparência extremamente realista, ela conquistou milhares de seguidores e direcionava parte dessa audiência para a Fanvue, plataforma de conteúdo por assinatura semelhante ao OnlyFans.
O responsável pela personagem, conhecido pelo pseudônimo Professor EP, passou posteriormente a vender cursos explicando como havia construído seu negócio com influenciadoras artificiais. Ele afirmou ter obtido mais de US$ 1 milhão em seis meses administrando esse tipo de operação. A Wired informou que a própria Fanvue confirmou que Emily havia faturado US$ 100 mil dentro da plataforma em determinado período.
O caso, entretanto, também revelou um lado bem mais problemático dessa indústria.
Uma investigação da ABC australiana descobriu que parte dos vídeos publicados como se fossem de Emily utilizava originalmente os corpos de mulheres reais. O rosto sintético da personagem era colocado sobre esses vídeos por meio de técnicas de troca facial. Algumas das mulheres disseram que não sabiam que suas imagens estavam sendo utilizadas.

Ou seja: em algumas operações, nem mesmo o corpo que aparece na imagem foi criado por IA.
Sarah Jordan e uma indústria baseada em rostos que não existem
Emily não é um caso isolado. A mesma investigação encontrou dezenas de influenciadoras artificiais administradas por criadores em diferentes países. Uma delas era chamada Sarah Jordan.

Neste caso, os responsáveis utilizavam vídeos publicados originalmente por mulheres reais e substituíam digitalmente seus rostos pelo da personagem artificial. A modelo australiana Ella Cervetto e a americana Celine Farach estavam entre as mulheres que tiveram vídeos utilizados dessa maneira.
O resultado podia enganar facilmente quem encontrasse aquele conteúdo rapidamente no Instagram.
Para o espectador, parecia simplesmente mais um vídeo de uma influenciadora. Na realidade, existiam três camadas diferentes: uma mulher real havia gravado o vídeo, um rosto artificial era colocado sobre ela e outra pessoa administrava o perfil e recebia o dinheiro.
Mia Zelu chegou a “ir” a Wimbledon sem nunca sair de casa
Em 2025, outra personagem mostrou como esse tipo de conteúdo estava ficando ainda mais convincente.
Mia Zelu publicou fotografias mostrando sua suposta passagem pelo torneio de Wimbledon, em Londres. Nas imagens, aparecia nas arquibancadas, usando roupas elegantes e aproveitando tudo o que normalmente apareceria no perfil de alguma influenciadora presente no torneio.
Só que Mia não esteve em Wimbledon.
Ela também não esteve em Londres.
Na verdade, Mia Zelu não existe.
As imagens foram produzidas artificialmente e receberam dezenas de milhares de curtidas. Na época, a personagem já possuía mais de 160 mil seguidores. Sua própria biografia indicava que se tratava de uma influenciadora criada por IA, mas isso não impediu que muita gente inicialmente interpretasse aquelas fotografias como registros reais.

O caso mostrou algo que provavelmente se tornará cada vez mais comum: a IA não precisa apenas inventar uma pessoa. Ela consegue também inventar lugares onde essa pessoa esteve, eventos dos quais participou e experiências que nunca aconteceram.
Kenza Layli chegou a ganhar um concurso de beleza para mulheres que não existem
O fenômeno cresceu tanto que surgiu até um concurso específico para essas personagens. Em 2024, a Fanvue realizou o primeiro Miss AI, reunindo cerca de 1.500 inscrições de criadores de personagens virtuais.
A vencedora foi Kenza Layli, uma influenciadora marroquina totalmente gerada por inteligência artificial. Na época do concurso, ela já acumulava perto de 200 mil seguidores no Instagram e outros 45 mil no TikTok.

Neste caso não existe exatamente uma tentativa de esconder sua origem: Kenza é apresentada abertamente como uma personagem digital criada pela agência Phoenix AI, de Myriam Bessa.
A vitória rendeu à responsável pela personagem um prêmio de US$ 5 mil, além de suporte para promover ainda mais o perfil.
O curioso é que o concurso avaliava justamente características como realismo, tecnologia empregada na criação e influência nas redes sociais. Ou seja, já existe até uma competição para descobrir quem consegue produzir a influenciadora artificial mais convincente.
Lil Miquela já fazia isso antes da explosão da inteligência artificial
Essa história, na verdade, começou antes mesmo da atual geração de ferramentas de IA.
Em 2016 surgiu Lil Miquela, uma personagem virtual criada pela empresa Brud. Ela se apresentava como cantora e influenciadora, publicava fotografias, falava sobre relacionamentos e chegou a participar de campanhas de grandes marcas.
Sua aparência era mais claramente digital do que a das personagens atuais, mas o conceito era praticamente o mesmo: criar uma personalidade fictícia e fazê-la viver dentro das redes sociais como se fosse uma pessoa.
Miquela trabalhou com empresas como Prada, Samsung e Calvin Klein e acabou se tornando uma espécie de precursora do mercado atual de influenciadores virtuais.
A principal diferença é tecnológica. Criar uma personagem como Miquela exigia muito mais trabalho de computação gráfica. Hoje, ferramentas de inteligência artificial permitem produzir personagens muito mais realistas em uma fração do tempo.
Mas como conseguem fazer a mesma mulher aparecer em centenas de fotos?
Essa talvez seja a parte mais interessante de toda a história. Quem cria esses perfis normalmente começa desenvolvendo uma identidade visual. São definidos rosto, cabelo, formato do corpo, idade aparente, estilo de roupa e outras características. Depois é criado um conjunto de imagens de referência.

Modelos de geração de imagens conseguem usar essas referências para reproduzir aproximadamente a mesma personagem em situações completamente diferentes. Assim, a mesma mulher pode aparecer hoje em uma academia, amanhã tomando café em Paris e no fim de semana em uma praia no Caribe.
Quanto melhor o sistema utilizado para preservar as características do rosto, mais convincente fica o perfil.
Além disso, hoje já existem ferramentas capazes de transformar imagens em pequenos vídeos, sincronizar movimentos labiais, gerar vozes artificiais e até manter conversas.
É justamente essa combinação que permite criar algo muito mais complexo que uma simples fotografia falsa. É possível construir uma pessoa falsa inteira.
Algumas chegam a ter até “amigas” e “irmãs”
Existe ainda outro truque curioso. Criadores começaram a colocar várias personagens artificiais juntas nas mesmas fotografias. Uma comenta a publicação da outra, compartilha seus conteúdos e aparece em supostas festas ou viagens.
A ABC encontrou redes desse tipo nas quais diferentes influenciadoras artificiais promoviam umas às outras. Em alguns casos existem até “irmãs”.
Emily Pellegrini, por exemplo, ganhou uma personagem relacionada chamada Fiona Pellegrini.

Isso ajuda a criar a impressão de que existe um pequeno círculo social por trás daqueles perfis. Só que nenhuma daquelas pessoas necessariamente existe.
E alguém realmente acredita que está conversando com uma mulher de verdade?
Sim. Uma das razões pelas quais esse mercado se tornou lucrativo é justamente a facilidade de criar vínculos entre seguidores e personagens.
A própria agência responsável por Aitana afirmou que, mesmo depois de a imprensa divulgar amplamente que ela era artificial, seguidores continuaram declarando seus sentimentos pela personagem.

No caso de outros perfis, porém, a origem artificial pode ser muito menos evidente. Isso cria uma diferença importante entre personagem virtual e fraude.
Uma influenciadora criada por IA que informa claramente sua natureza funciona praticamente como um personagem de entretenimento. O problema começa quando alguém tenta fazer o público acreditar que existe uma pessoa real por trás da conta ou, pior ainda, utiliza imagens de mulheres reais sem autorização.

QUEM FAZ
Pra descabelar o palhaço tanto faz real ou IA.