As caixas-pretas são tratadas quase como as grandes testemunhas de um acidente aéreo. Elas registram conversas na cabine, informações sobre motores, altitude, velocidade e dezenas de outros parâmetros que ajudam investigadores a reconstruir os últimos momentos de um voo.
Mas nem sempre elas conseguem contar toda a história. Em alguns acidentes, as gravações terminaram antes do momento decisivo. Em outros, os dados permitiram diferentes interpretações. E há ainda casos em que os equipamentos simplesmente desapareceram junto com o avião. Conheça cinco episódios da aviação que, mesmo depois de longas investigações, ainda guardam perguntas sem resposta.
SilkAir 185: por que os gravadores pararam antes da queda?

Em 19 de dezembro de 1997, o voo SilkAir 185 seguia de Jacarta, na Indonésia, para Singapura quando o Boeing 737 entrou subitamente em um mergulho praticamente vertical e caiu no rio Musi. As 104 pessoas a bordo morreram.
O detalhe mais intrigante aconteceu minutos antes. O gravador de voz da cabine parou de funcionar e, algum tempo depois, o gravador de dados de voo também deixou de registrar informações. Por isso, justamente os momentos mais importantes da queda ficaram sem registros completos.
A investigação indonésia concluiu que não havia evidências suficientes para determinar a causa do acidente. O NTSB americano chegou a uma interpretação diferente: considerou que as evidências eram compatíveis com uma ação deliberada nos controles, provavelmente realizada pelo comandante. Até hoje, portanto, não existe consenso oficial entre os investigadores dos dois países.
EgyptAir 990: acidente ou ação deliberada?

Na madrugada de 31 de outubro de 1999, o voo EgyptAir 990 caiu no Oceano Atlântico depois de deixar Nova York com destino ao Cairo. As 217 pessoas a bordo morreram.
As caixas-pretas foram encontradas e revelaram uma sequência incomum. O avião começou uma forte descida enquanto o copiloto estava sozinho na cabine. O NTSB concluiu que a queda ocorreu em consequência de comandos efetuados deliberadamente pelo copiloto.
As autoridades egípcias rejeitaram essa conclusão. Para os investigadores do Egito, problemas técnicos no sistema de controle da aeronave não poderiam ser descartados. Assim, mesmo com gravações de voz e dados disponíveis, americanos e egípcios chegaram a explicações diferentes para o mesmo acidente.
South African Airways 295: o que começou o incêndio?

Em 1987, um Boeing 747 da South African Airways conhecido como Helderberg voava de Taiwan para a África do Sul quando um incêndio começou no compartimento de carga. O avião caiu no Oceano Índico perto das Ilhas Maurício, matando 159 pessoas.
A recuperação da caixa-preta foi uma operação extraordinária, realizada a milhares de metros de profundidade. Mas havia um problema: o gravador de voz havia parado de funcionar depois que o fogo atingiu o cabo que ligava o equipamento à cabine.
Os investigadores conseguiram determinar que houve um incêndio, mas nunca descobriram com certeza o que provocou as chamas. O conteúdo da carga também alimentou especulações durante décadas, principalmente porque o acidente ocorreu durante o regime do apartheid na África do Sul. Uma investigação posterior da Comissão da Verdade e Reconciliação confirmou que a origem do incêndio continuava indeterminada.
Voo Itavia 870: bomba, míssil ou outra coisa?

Na noite de 27 de junho de 1980, um DC-9 da companhia italiana Itavia desapareceu dos radares enquanto voava entre Bolonha e Palermo. Os destroços caíram no Mar Tirreno e todas as 81 pessoas a bordo morreram.
O episódio ficou conhecido na Itália como o massacre de Ustica e deu origem a uma das investigações aéreas mais controversas da Europa. Ao longo dos anos, surgiram duas explicações principais. Uma delas afirma que houve uma explosão dentro do avião. Outra sustenta que a aeronave teria sido atingida durante alguma operação militar que acontecia na região.
Investigações técnicas, processos judiciais e análises de radar chegaram a conclusões diferentes. Décadas depois, ainda há disputa sobre o que exatamente destruiu o avião naquela noite.
MH370: as caixas-pretas que nunca apareceram

O Malaysia Airlines MH370 talvez seja o maior mistério da aviação moderna. Em 8 de março de 2014, o Boeing 777 partiu de Kuala Lumpur com destino a Pequim levando 239 pessoas e simplesmente desapareceu.
Dados de radar e comunicações por satélite indicaram que o avião desviou da rota e continuou voando durante horas em direção ao sul do Oceano Índico. Alguns fragmentos foram encontrados posteriormente em praias e ilhas do Oceano Índico e da costa africana. Mas a fuselagem principal e, principalmente, os gravadores de voz e dados nunca foram recuperados.
O relatório oficial da investigação malaia reconheceu que, sem os destroços principais e sem os registros das caixas-pretas, não foi possível determinar com certeza por que o avião mudou de rota nem o que aconteceu durante suas últimas horas de voo.
As caixas-pretas são fundamentais para compreender acidentes aéreos, mas esses casos mostram que nem mesmo elas são capazes de responder a todas as perguntas. Às vezes faltam segundos cruciais de gravação. Em outras situações, os mesmos dados permitem interpretações diferentes. E, como no caso do MH370, algumas respostas podem estar até hoje no fundo do oceano.

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