Durante décadas, as bancas de jornal brasileiras foram praticamente uma disputa pela atenção do público. Sem redes sociais, notificações ou algoritmos para ajudar, as revistas precisavam convencer alguém a parar, olhar e levar um exemplar para casa. E algumas fizeram isso de maneiras bastante criativas, exageradas e, vistas hoje, até um pouco estranhas.
Montagens improváveis, manchetes que dificilmente seriam usadas atualmente e imagens que pareciam saídas de um sonho maluco fizeram parte dessa época. Reunimos algumas capas brasileiras que chamam atenção justamente por isso.
Superinteressante e a onça que perguntava se seria extinta
Em dezembro de 1994, a Superinteressante colocou uma enorme onça-pintada ocupando praticamente toda a capa. Sobre o rosto do animal aparecia a frase enorme: “EXTINTA? EU?”.

A chamada acompanhava uma reportagem sobre o risco de desaparecimento da espécie no Brasil. Hoje, entretanto, o conjunto chama atenção pelo estilo típico das revistas dos anos 1990: letras gigantescas sobre a fotografia e uma manchete quase como se o próprio animal estivesse conversando com quem passava pela banca.
Quando vitaminas derretiam uma tigela
Outra capa bastante curiosa da Superinteressante apareceu em março de 1995. Para falar sobre vitaminas, a revista criou uma montagem surreal: uma tigela cheia de verduras e alimentos parecia derreter, transformando-se em um líquido azul do qual caíam várias cápsulas.

A manchete também era direta: “VITAMINAS – Ou você toma ou você perde”. É um ótimo exemplo daquele estilo visual experimental muito usado nas revistas de ciência da década de 1990, quando Photoshop e manipulações digitais ainda eram uma novidade para boa parte do público.
A Veja que avisou: “Você ainda vai ter um computador”
Algumas capas ficam estranhas não pelo visual, mas porque o tempo mudou completamente a maneira como enxergamos a manchete. Em abril de 1993, a Veja publicou uma reportagem sobre informática anunciando aos leitores que “você ainda vai ter um computador”.

Naquela época, um PC dentro de casa ainda estava longe de ser algo comum para grande parte dos brasileiros. Três décadas depois, quando carregamos computadores extremamente poderosos dentro do bolso, a chamada ganhou involuntariamente um ar bastante curioso.
A capa que transformou Sandy em “tentação”
Em 2006, a IstoÉ Gente colocou Sandy em primeiro plano segurando um morango próximo à boca. A manchete gigantesca dizia “Tentações”, enquanto o texto da capa prometia revelar o que a cantora pensava sobre sexo, drogas e rock’n’roll.

O contraste era justamente o chamariz. Sandy carregava havia anos uma imagem pública de “boa moça”, e revistas daquele período exploravam intensamente qualquer tentativa de mostrar um lado mais adulto da cantora. Vista hoje, a escolha do morango, da pose e da manchete parece quase uma paródia das capas de celebridades dos anos 2000.
A Sexy anunciou na capa que sua entrevistada havia transado com o repórter
Talvez uma das chamadas mais improváveis já colocadas em uma revista brasileira tenha aparecido na Sexy nos anos 1990. A publicação anunciou na capa que a apresentadora Doris Giesse havia transado com Alex Solnik, identificado simplesmente como “nosso repórter”.

Havia, porém, uma informação importante por trás da manchete sensacionalista: os dois mantinham um relacionamento e posteriormente se casaram. A própria Doris contou anos depois que uma entrevista acabou se transformando em um relato da primeira noite do casal. Mesmo para os padrões provocativos das revistas masculinas da época, a maneira como a história foi vendida na capa continua surpreendente.
A revista masculina que lançou uma edição inteira de fotos antes proibidas
Durante a ditadura militar, revistas masculinas brasileiras também conviviam com a censura sobre aquilo que poderia aparecer em suas páginas. A revista Status chegou a ter fotografias vetadas pelas autoridades.
Quando essas restrições foram eliminadas, em 1980, a publicação resolveu aproveitar a situação comercialmente. Lançou uma edição especial chamada “Sem censura”, com cerca de 100 páginas reunindo justamente fotografias que não haviam podido ser publicadas anteriormente. Era praticamente uma revista construída a partir de tudo aquilo que um dia alguém havia decidido esconder.

Quando a Veja ensinava “bons modos” até para o motel
Em novembro de 1991, a Veja publicou uma capa que prometia um guia de comportamento para os anos 1990. O título escolhido foi “Na selva dos novos costumes”, acompanhado da explicação de que as dicas iam “do escritório ao motel”.
A ilustração caricata e a combinação inusitada de etiqueta, trabalho e vida íntima fazem a capa parecer ainda mais curiosa vista mais de três décadas depois. É também um retrato de uma época em que revistas semanais assumiam até o papel de explicar como o brasileiro deveria se comportar diante das mudanças sociais.


QUEM FAZ