"Eu matei a santa"

Apaixonado por irmã Lindalva, Augusto a matou há 14 anos. Agora, ela será beatificada e ele vive seu inferno particular.

Lindalva não amava Augusto, que amava Lindalva, que amava outro homem. Tomado pela loucura de um amor não correspondido, Augusto matou a amada, que morreu por amor a outro. Augusto foi parar no manicômio. Lindalva virou santa. Essa história começa em 1993 no tradicional bairro da Boa Viagem, cidade de Salvador (BA), quando um bárbaro assassinato comoveu a população baiana. Com 44 facadas, o carregador de caminhão Augusto da Silva Peixoto, então com 45 anos, pôs fim à vida da freira Lindalva Justo de Oliveira, 40, uma irmã da ordem Filhas da Caridade de São Vicente de Paula. E agora, passados 14 anos do crime, a história volta à tona. Na visita que o papa Bento XVI fará ao Brasil no próximo mês, os católicos preparam uma grande festa para o anúncio da beatificação de irmã Lindalva.

A indicação é a primeira etapa antes da canonização, a proclamação de um santo. Enquanto isso, Augusto vive seu inferno particular: depois de 12 anos e oito meses trancafiado num manicômio judiciário, ele está livre, mas completamente sem amigos ou família. Rejeitado, ele se diz arrependido e luta contra o preconceito. “Eu matei a santa, mas não sou um monstro”, confessa Augusto.

Sexta-feira da Paixão, 9 de abril de 1993. Sentado em um banco de concreto, aos pés da escadaria lateral que leva ao primeiro andar do Abrigo de Idosos Dom Pedro II, em Salvador (BA), Augusto estava tranqüilo. Como se nada tivesse acontecido, ele fumava um cigarro enquanto limpava na própria calça uma faca ensangüentada. Ao seu lado, um rastro vermelho de morte escorria pelos 27 degraus que separam a rua do primeiro andar do prédio onde funciona o refeitório do Lar São Francisco, sala onde dezenas de velhinhos faziam suas refeições. Os terríveis acontecimentos daquela manhã ainda estavam frescos na mente de Augusto. Pouco depois das 6h30, Lindalva, como de costume, chegava ao refeitório para servir o café da manhã para os internos. Augusto, um dos abrigados, estava no pátio quando a viu chegar pela entrada principal. Minutos depois, ele subiu os degraus da porta lateral do pavilhão armado com uma faca. Ensandecido, Augusto puxou a freira pelo braço e desferiu-lhe um violento golpe na jugular esquerda. O sangue esguichava por todos os lados enquanto Lindalva gritava, atônita e desesperada. Quando ela caiu, Augusto imobilizou-lhe a perna direita e cravou outras 43 facadas no corpo da mulher. Como num filme de terror. Augusto ainda gritou para os quatro internos que assistiam à cena aterrorizados:

– “Saiam de perto, senão faço o mesmo com vocês! Estou picando a minha carne!”, disse. “Ela nunca cedeu! Está aqui a recompensa… Podem chamar a polícia. Eu não vou fugir, fiz o que deveria ser feito.”

Hoje, aos 59 anos, Augusto tem um olhar triste e perdido. Há um ano ele ganhou a liberdade do Hospital de Custódia e Tratamento, mas na época não saiu da prisão por um simples motivo: não tinha para onde ir. Sua família, extremamente católica, jamais o perdoou. Do lado de fora das muralhas, o assassino da irmã Lindalva só encontrou abrigo há oito meses, num centro de recuperação para dependentes químicos na cidade de Simão Filho, na periferia de Salvador.

“Já paguei pelo meu erro, mas a sociedade não me perdoa”, lamenta. “Se eu fosse igual ao jornalista lá de São Paulo que matou a namorada, eu entenderia a raiva das pessoas”, compara, referindo-se ao jornalista Pimenta Neves, réu confesso do assassinato de Sandra Gomide, condenado pelo crime, mas até hoje em liberdade.

Deu na Istoé, veja a matéria completa.

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