Eleições nem sempre seguem o roteiro que pesquisas, campanhas e até os próprios candidatos imaginavam. Na história política brasileira, algumas disputas tiveram mudanças tão inesperadas que, em questão de semanas ou até dias, um cenário aparentemente definido acabou completamente diferente.
1930: venceu a eleição, mas nunca assumiu a Presidência

Poucas reviravoltas foram tão radicais quanto a de 1930. Júlio Prestes venceu a eleição presidencial de 1º de março com mais de 1 milhão de votos. Só que ele jamais chegaria ao Palácio do Catete como presidente.
Meses depois, um movimento armado derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de Prestes. Getúlio Vargas, que havia sido derrotado nas urnas, assumiu o comando do Governo Provisório em novembro. O episódio entrou para a história como Revolução de 1930, embora existam diferentes interpretações historiográficas sobre a natureza do movimento.
1985: uma divisão dentro do partido governista mudou a eleição

A eleição de 1985 não foi direta. O presidente ainda era escolhido pelo Colégio Eleitoral e a disputa terminou entre Tancredo Neves e Paulo Maluf.
Mas uma divisão no PDS, partido que sustentava o governo militar, ajudou a transformar completamente o cenário. Parte de seus integrantes rompeu com a candidatura de Maluf e participou da formação da Aliança Democrática. O TSE também decidiu que a regra de fidelidade partidária não obrigava os integrantes do Colégio Eleitoral a seguir a orientação partidária naquela votação. Tancredo terminou eleito com 480 votos, contra 180 de Maluf.
A história ainda teria outra reviravolta: Tancredo adoeceu na véspera da posse e morreu semanas depois, sem assumir a Presidência. José Sarney, eleito vice em sua chapa, tornou-se presidente.
1989: Silvio Santos apareceu e quase embaralhou toda a disputa

A primeira eleição presidencial direta depois de quase três décadas já era imprevisível quando ganhou um personagem inesperado: Silvio Santos.
A poucos dias da votação, o apresentador entrou na corrida presidencial e pesquisas da época chegaram a lhe atribuir cerca de 30% das preferências. Mas, em 9 de novembro, apenas seis dias antes do primeiro turno, o TSE indeferiu por unanimidade o registro da chapa apresentada pelo Partido Municipalista Brasileiro.
Com Silvio fora da disputa, Fernando Collor, Lula e Leonel Brizola voltaram ao centro da corrida. Collor e Lula avançaram para o segundo turno, e Collor terminou eleito com pouco mais de 35 milhões de votos.
1994: Lula tinha 22 pontos de vantagem. Pouco depois, FHC venceu no primeiro turno

Em junho de 1994, o Datafolha registrava Lula com 41% das intenções de voto, enquanto Fernando Henrique Cardoso aparecia com 19%. A diferença era de enormes 22 pontos percentuais.
Então o cenário começou a mudar rapidamente. No final de julho, depois da entrada em circulação do real, Lula aparecia com 32% e FHC com 29%, tecnicamente empatados segundo o levantamento.
A mudança se consolidou até a votação. Fernando Henrique venceu a eleição já no primeiro turno, recebendo mais de 34 milhões de votos. Estudos reunidos pela própria biblioteca do TSE apontam o Plano Real como um dos fatores centrais daquela disputa.
2006: Alckmin chegou ao segundo turno e terminou com menos votos do que tinha no primeiro

A eleição de 2006 produziu uma situação bastante incomum.
No primeiro turno, Lula recebeu aproximadamente 48,6% dos votos válidos e Geraldo Alckmin, 41,6%. Como ninguém ultrapassou 50%, os dois foram para uma nova votação.
Normalmente, espera-se que os dois candidatos ampliem sua votação no segundo turno ao receberem parte dos votos dados aos concorrentes eliminados. Com Alckmin aconteceu o contrário: seu percentual caiu para 39,17%, enquanto Lula chegou a cerca de 60,8%. Alckmin terminou o segundo turno inclusive com menos votos absolutos do que havia recebido no primeiro.
2014: Marina disparou nas pesquisas, mas quem foi ao segundo turno foi Aécio

A eleição de 2014 mudou radicalmente depois da morte de Eduardo Campos em um acidente aéreo durante a campanha. Marina Silva assumiu a candidatura do PSB e cresceu rapidamente.
No início de setembro, uma pesquisa Datafolha mostrava Marina e Dilma Rousseff empatadas com 34% das intenções de voto. Aécio Neves aparecia bem atrás, com apenas 15%.
Mas o cenário se inverteu durante as semanas seguintes. No começo de outubro, Marina havia caído para 25%, enquanto Aécio subia para 20%. Nas urnas, foi Aécio quem terminou em segundo lugar, com 33,55% dos votos válidos, contra 41,59% de Dilma.
No segundo turno, a disputa ficou ainda mais apertada: Dilma foi reeleita com 51,64% dos votos válidos, diante de 48,36% de Aécio.

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