Neste Dia do Rock, vale lembrar uma história curiosa e pouco conhecida que mostra como fazer música no Brasil nem sempre foi uma tarefa simples. Em 1982, a banda Blitz, um dos grandes símbolos do nascimento do rock nacional dos anos 1980, precisou tomar uma medida inacreditável para conseguir colocar seu primeiro disco nas lojas: riscar manualmente cerca de 30 mil cópias de vinil já prensadas.

O episódio aconteceu em um período em que o país ainda convivia com os reflexos da Ditadura Militar. Embora o AI-5, decreto que representou o auge da repressão e da censura no Brasil, tivesse sido revogado alguns anos antes, os órgãos responsáveis por fiscalizar conteúdos artísticos continuavam atuando. Criado em 1968, o AI-5 ampliou os poderes do governo militar e abriu caminho para a censura de músicas, filmes, peças de teatro, livros e diversas manifestações culturais que fossem consideradas inadequadas pelas autoridades da época.

No caso da Blitz, duas músicas do álbum As Aventuras da Blitz acabaram vetadas pelos censores: Cruel Cruel Esquizofrenético Blues e Ela Foi Morar Comigo na Lua. Algumas expressões presentes nas letras foram consideradas impróprias, incluindo termos vistos como vulgares para os padrões da época. O problema é que a decisão chegou quando os discos já estavam prontos para distribuição. Sem tempo para uma nova prensagem, a solução encontrada foi simples e absurda ao mesmo tempo: funcionários da gravadora passaram a riscar os sulcos das faixas proibidas em cada um dos 30 mil vinis, impedindo que elas fossem reproduzidas.

Mais de quatro décadas depois, a história permanece como um retrato de um período em que até mesmo palavras em uma canção podiam despertar a atenção da censura. Afinal, antes dos algoritmos, das playlists e do streaming, houve uma época em que o rock precisava sobreviver até mesmo às marcas deixadas por um disco riscado à mão.
Curiosamente, após o final da censura, a banda lançou um disco pequeno, com apenas duas faixas, que foi comercializado como um “complemento” ao disco original.

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