A cada eleição presidencial acontece praticamente a mesma coisa. Pesquisas são divulgadas quase diariamente, candidatos comemoram ou questionam os números e muita gente fica esperando o domingo para descobrir se os levantamentos realmente estavam próximos da realidade. Mas, olhando para eleições anteriores, o que aconteceu? As pesquisas costumam ser confirmadas pelas urnas?
A resposta depende do que chamamos de “acertar”. Uma pesquisa não foi criada para prever exatamente o percentual que cada candidato terá, mas para estimar a preferência do eleitorado naquele momento, dentro de uma margem de erro. Por isso, uma pesquisa pode identificar corretamente quem está na frente e, ainda assim, apresentar percentuais diferentes daqueles registrados na votação.
Para tornar a comparação mais justa, vale observar principalmente os levantamentos do Datafolha realizados muito perto das eleições e compará-los com os resultados oficiais. E o histórico traz casos de impressionante proximidade, mas também eleições em que as urnas apresentaram diferenças consideráveis.
1994: as pesquisas já indicavam FHC eleito no primeiro turno

Pouco antes da eleição presidencial de 1994, a última pesquisa Datafolha apontava Fernando Henrique Cardoso com 48% das intenções de voto, enquanto Lula aparecia com 22%. O levantamento havia sido realizado entre 30 de setembro e 1º de outubro.
Fernando Henrique acabou realmente eleito no primeiro turno. Portanto, aquilo que talvez fosse a informação mais importante do levantamento, a possibilidade de definição da eleição sem segundo turno, se confirmou.

É também um bom exemplo de por que não é adequado simplesmente comparar intenção de voto bruta com percentual de votos válidos: pesquisas ainda possuem indecisos, brancos e nulos, enquanto o resultado utilizado para definir o vencedor considera somente os votos válidos.
1998: FHC novamente venceria no primeiro turno, mas o percentual não foi perfeito

Quatro anos depois, as pesquisas novamente indicavam que Fernando Henrique poderia encerrar a disputa já no primeiro turno.
Ele terminou a eleição com 53,06% dos votos válidos, contra 31,71% de Lula.
Uma análise publicada posteriormente pela própria Folha observou uma diferença interessante: o Datafolha projetava FHC com aproximadamente 56% dos votos válidos, enquanto ele terminou com pouco mais de 53%. Ou seja, o levantamento identificou corretamente tanto o vencedor quanto a vitória no primeiro turno, mas superestimou sua votação.

É exatamente aí que começa a diferença entre “acertar quem vence” e “acertar os números”.
2002: Lula chega ao segundo turno como favorito e vence Serra

Em 2002, Lula chegou ao segundo turno contra José Serra depois de liderar os levantamentos durante boa parte da campanha.
O resultado das urnas foi Lula com 61,27% dos votos válidos e Serra com 38,73%.

Mais uma vez, a tendência que vinha sendo mostrada pelas pesquisas se confirmou: Lula venceu a eleição por uma vantagem ampla.
2006: uma pesquisa praticamente antecipou o resultado

Talvez um dos exemplos mais interessantes seja o segundo turno de 2006.
Doze dias antes da eleição, o Datafolha calculava, considerando apenas os votos válidos, Lula com 60% e Geraldo Alckmin com 40%. A margem de erro do levantamento era de dois pontos percentuais.
Resultado das urnas?
Lula: 60,83%
Alckmin: 39,17%
A diferença foi inferior a um ponto percentual para cada candidato.

É um daqueles casos em que pesquisa e urna ficaram extremamente próximas.
2010: Dilma vence Serra

Em 2010, Dilma Rousseff e José Serra disputaram o segundo turno.
A votação terminou com Dilma obtendo 56,05% dos votos válidos e Serra 43,95%.

Os levantamentos realizados durante o segundo turno já mostravam Dilma numericamente à frente, e a ordem observada nas pesquisas foi mantida quando os votos foram contados.
2014: quase uma fotografia das urnas

A eleição de 2014 oferece talvez um dos melhores exemplos de proximidade.
Na véspera da votação, o Datafolha apontava:
Dilma Rousseff: 52%
Aécio Neves: 48%
O levantamento considerava votos válidos e tinha margem de erro de dois pontos percentuais.
Nas urnas:
Dilma: 51,64%
Aécio: 48,36%
Uma diferença de apenas 0,36 ponto percentual em relação à pesquisa para cada candidato.

Nesse caso, dizer que a pesquisa ficou muito próxima do resultado não é exagero.
2018: no segundo turno, o resultado foi praticamente cravado

A eleição seguinte proporcionou outro caso impressionante.
Na véspera do segundo turno de 2018, o Datafolha calculava:
Jair Bolsonaro: 55%
Fernando Haddad: 45%
A própria retrospectiva histórica do instituto registra que o resultado oficial terminou com praticamente a mesma divisão dos votos.
Mas existe um detalhe importante: o primeiro turno não foi tão preciso.
Na véspera da primeira votação, Bolsonaro aparecia com cerca de 40% dos votos válidos no Datafolha. Nas urnas, terminou com aproximadamente 46%.
Portanto, a pesquisa identificou claramente o candidato que estava na liderança, mas subestimou o tamanho de sua votação.

Essa eleição é uma ótima demonstração de como duas afirmações aparentemente contraditórias podem ser verdadeiras: a pesquisa acertou muito bem o segundo turno, mas ficou mais distante da votação de Bolsonaro no primeiro.
2022: acertou a ordem, mas a disputa ficou mais apertada

Em 2022 aconteceu algo semelhante.
Na última pesquisa Datafolha antes do segundo turno, Lula tinha 52% dos votos válidos, enquanto Jair Bolsonaro aparecia com 48%. A margem de erro era de dois pontos percentuais.
Nas urnas, o resultado foi mais apertado:
Lula: 50,90%
Bolsonaro: 49,10%
Portanto, o levantamento identificou corretamente quem estava numericamente à frente, mas a vantagem observada nas urnas foi menor.

E, novamente, o primeiro turno havia mostrado uma diferença maior. É justamente por isso que analisar apenas se “a pesquisa acertou o vencedor” conta somente parte da história.
Então as pesquisas acertam ou erram?

O histórico mostra que não existe uma resposta tão simples.
Nas eleições presidenciais analisadas, os levantamentos finais frequentemente identificaram corretamente quem estava numericamente à frente e vários deles chegaram muito perto dos percentuais registrados posteriormente nas urnas. Casos como 2006, 2014 e 2018 no segundo turno tiveram números especialmente próximos.
Isso não significa, porém, que as pesquisas reproduzam perfeitamente o resultado eleitoral. Em algumas eleições, determinados candidatos terminaram fora do percentual central indicado poucos dias antes da votação.
Há uma razão fundamental para isso: pesquisa eleitoral e eleição medem coisas diferentes.
A pesquisa pergunta a uma amostra de eleitores o que eles pretendem fazer. A eleição registra o voto efetivamente depositado por milhões de pessoas. Entre uma coisa e outra existem indecisos que escolhem candidato, eleitores que mudam de opinião, abstenções e votos brancos ou nulos.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente “as pesquisas acertam?”.
A pergunta correta é: quão perto das urnas elas conseguem chegar?
E olhando para as últimas eleições presidenciais brasileiras, a resposta varia bastante. Algumas ficaram surpreendentemente próximas. Outras acertaram quem estava na frente, mas erraram o tamanho da vantagem.
É justamente essa diferença que faz com que, eleição após eleição, as pesquisas continuem rendendo discussão até o último voto ser contado.

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