Hoje basta alguns minutos no TikTok para um vídeo desconhecido alcançar milhões de pessoas. Mas houve uma época em que os virais brasileiros percorriam um caminho bem diferente. Eles eram enviados por e-mail, compartilhados no Orkut, exibidos em blogs e, com a popularização do YouTube, passavam de computador em computador até virarem assunto no país inteiro.
Alguns desses vídeos fizeram tanto sucesso que seus bordões sobreviveram à própria época. Quem viveu a internet brasileira dos anos 2000 e início dos anos 2010 provavelmente vai reconhecer vários deles.
Sanduíche-iche
Muito antes de “viralizar” virar uma palavra comum, a nutricionista Ruth Lemos protagonizou um dos primeiros grandes fenômenos da internet brasileira. Durante uma entrevista ao vivo para a TV Globo Nordeste, em 2004, ela enfrentou um problema com o retorno de áudio e começou a repetir involuntariamente algumas palavras.
O trecho em que fala “sanduíche-iche” acabou circulando pela internet e explodiu principalmente em 2005, passando por comunidades do Orkut, programas de televisão e incontáveis paródias. Ruth chegou a virar emoticon do MSN Messenger.
Tapa na Pantera
Em 2006, muita gente recebeu de algum amigo um vídeo de uma simpática senhora contando tranquilamente que fumava maconha havia décadas. Para aumentar ainda mais a curiosidade, uma parcela do público inicialmente acreditou que o depoimento fosse verdadeiro.
Na realidade, tudo fazia parte do curta-metragem “Tapa na Pantera”, protagonizado pela atriz Maria Alice Vergueiro. O vídeo foi parar no YouTube e rapidamente se espalhou. Em menos de uma semana, uma das versões já havia alcançado cerca de 235 mil visualizações, um número impressionante para aquele período.
Luiza que está no Canadá
Em janeiro de 2012, um simples comercial imobiliário exibido na Paraíba conseguiu uma façanha improvável: transformar alguém que nem aparecia no anúncio em uma das pessoas mais comentadas do Brasil.
Ao apresentar sua família no comercial, Gerardo Rabello fez questão de explicar a ausência de uma das filhas com a frase “menos Luiza, que está no Canadá”. Foi suficiente. A expressão tomou conta do Twitter e do Facebook, apareceu em piadas, propagandas e programas de televisão, enquanto Luiza ainda estava fazendo intercâmbio fora do país.
Para Nossa Alegria
Uma família reunida diante de uma câmera, uma música gospel e um refrão cantado com entusiasmo acima do esperado. Era tudo que a internet brasileira precisava em 2012.
Jefferson e Suellen Barbosa estavam cantando “Galhos Secos” ao lado da mãe quando Jefferson exagerou no famoso “Para nossa alegria”. A irmã não conseguiu segurar o riso e a mãe acabou deixando a gravação. O vídeo foi publicado em março daquele ano e alcançou quase 14 milhões de visualizações em apenas 20 dias. Vieram paródias, comerciais e participações em programas de televisão.
Nissim Ourfali
Também em 2012, um vídeo produzido originalmente para uma celebração familiar acabou escapando completamente de seu público original. Nele, Nissim Ourfali aparecia cantando uma paródia de “What Makes You Beautiful”, do One Direction, contando detalhes de sua vida.
O vídeo de seu Bar Mitzvá começou a ser compartilhado em massa e Nissim virou assunto nas redes sociais, chegando aos Trending Topics do Twitter. O sucesso, porém, também teve um lado complicado: a família passou a tentar retirar as cópias da internet depois da enorme exposição e dos ataques sofridos pelo garoto.
Uma internet bem diferente
O curioso é que nenhum desses vídeos precisou de algoritmo do TikTok, Reels ou Shorts para alcançar milhões de pessoas. Muitos se espalharam quando compartilhar um vídeo significava copiar um endereço, mandar pelo MSN, publicar no Orkut ou encaminhar por e-mail para os amigos.
Talvez justamente por isso vários deles tenham ficado tão marcados. Na internet daquela época, um viral podia permanecer circulando durante semanas ou meses e transformar uma frase aparentemente banal em um bordão conhecido no Brasil inteiro.

QUEM FAZ
Época boa da internet